|
A pintura de Ricardo Newton mais uma vez nos
surpreende, pelas possibilidades de desdobramentos no universo do tema
que ele persegue com obstinação: a cidade.
As quinze obras que compõem sua exposição
criam um tecido pictórico onde se sente o pulsar das ruas, nos olhares
de pares amorosos, nos afagos e beijos dos casais ou, simplesmente, nos
vestígios desses encontros, onde a sedução “neo-pop” da pintura
do artista se deixa atravessar por um realismo antropológico, que
evidencia a presença humana e nos convida a sair de nossa passividade
para acompanhar os personagens, nos ônibus ou na praia, sob o sol ou
sob a chuva.
Pinturas como
“Promessas”, “Champagne” e “Vestígios da Noite”, nos
remetem à Pop-art americana, pela sutileza do recorte, onde os indícios
nos levam a uma realidade manipulada, propositalmente, pelo artista. Mas
são apenas algumas referências, pois em Ricardo não existe a cor
chapada, muito pelo contrário, sua fatura é rica, sente-se a pintura,
em toda a sua grandeza, já que inexiste nele qualquer preocupação com
uma iconografia de valorização da cultura de massa. O “neo-pop” de
Ricardo possui luz tropical, e a carnação dos corpos retratados é
real e não uma apropriação gráfica das cores encontradas nas histórias
em quadrinhos.
Seu realismo gira em
torno desta presença humana que confere vida à cidade. É o diálogo não
verbalizado que escreve o texto de seus personagens. Em “Amor e
areia”, são apenas pernas fractadas que dão o depoimento de um
encontro íntimo, enquanto em outras obras, a natureza humana é
revelada no olhar furtivo que expressa desejo, e nos detalhes de uma
iconografia própria, aonde a realidade chega até nós num outro viés,
mas continua a nos trazer a transparência do vidro, o brilho do metal e
o desejo oculto entre homem e mulher.
Angela Ancora da Luz
|